História e Património

A utilização dos rochedos de Marvão para refúgio de povoações assoladas por povos invasores, como atalaia ou como ponto estratégico em termos estritamente militares, datará, pelo menos, do período romano. Podemos referir os seguintes factos históricos cabalmente documentados:

AS ORIGENS
FORAL

Período Romano e Alta Idade Média:
Se no séc. X, o que é hoje Marvão, era identificado pelo historiador cordovês Isa Ibn Áhmad ar-Rázi, por Fortaleza de Amaia e por Fortaleza de Amaia-o-Monte, entre outras designações, tal facto levanta a hipótese de que existiria fortificação no topo do monte que teria servido a cidade de Ammaia, fundada no séc. I, durante a sua existência.

Período Árabe – séc. IX
No séc. X, Marvão era identificada, pelo historiador cordovês acima referido e para além das designações já aludidas, por Monte de Amaia e por Amaia de Ibn Maruán. Ibn Maruán, de seu nome completo ‘Abd ar-Rah.ma:n Ibn Marwa:n Ibn Yu:nus al-Jillí:qi (Ab-derramão filho de Marvão filho de Iúnece – i. e. Johannes-João – o Galego), era um muladi de nobre estirpe emeritense que se celebrizou no último quartel do séc. IX como rebelde e caudilho de guerra contra o Emirato de Córdova. A Fortaleza de Ammaia servia então como refúgio estratégico ao (re)fundador de Badajoz quando, nesta capital, se sentia ameaçado. Assim aconteceu no ano de 884 perante a aproximação das tropas do Emir Muhâmmad, ameaçando destruir a cidade e fugir para o seu Monte: Marvão.

Período da Reconquista – 1160/1166
Na sua campanha de 1160/1166, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, terá conquistado Marvão, embora não se saiba se definitivamente, tendo em conta a contra-ofensiva de Almansor, entre 1190/1191, até à linha do Tejo.

Foral de 1226
Em 1226, D. Sancho II atribui a Marvão o seu primeiro foral, um dos primeiros forais régios no Alentejo.
D. Dinis apodera-se de Marvão.
A  importância estratégica de Marvão – e de outros Castelos da raia – levam D. Dinis a disputa-lo a seu irmão D. Afonso, no ano de 1299, apoderando-se da fortificação.

Crise de 1383-1385
Tomada do Castelo por forças partidá-rias do Mestre de Avis sendo alcaide Fr. Pedro Álvaro Pereira, Prior do Crato, Fronteiro-mor do Alentejo e alcaide de Portalegre, após renhido combate que durou meio dia.

Guerra da Restauração, 1641-1668
A partir da restauração da independência, a velha fortificação medieval é reabilitada face às novas tecnologias de guerra, ficando abaluartada nas zonas sensíveis e transformando-se o Castelo na sua cidadela. No decorrer da guerra desempenha um importante papel na defesa do Alto Alentejo. Registaram-se dois ataques importantes à fortaleza: em 1641 e em 1648, este último sob o comando do Marquês de Lagañes.

Guerra da Sucessão de Espanha, 1704-1712
Após a queda de Castelo de Vide, a 24 de Junho de 1704, entregou-se a Praça de Marvão, sem batalha. Mais tarde, tendo a população, o governador francês dos paisanos mandou aprisionar a população, enforcar, para exemplo, alguns populares, e enviar outros sob prisão para Castela, incluindo os frades do Convento de Nossa Senhora da Estrela. A Praça foi posteriormente tomada pelo exército português comandado pelo Conde de São João. Frente ao Baluarte das Portas da Vila, distinguiu-se o ataque desferido pelo terço de infantaria portuguesa comandado pelo Conde de Coculim.

Guerra dos Sete Anos, 1756-1762
Em Novembro de 1762, Marvão sofreu um ataque surpresa por parte do exército espanhol, durante as últimas operações.

Testemunho da importância estratégica da Praça, 1796
Tenente Coronel Engenheiro, Tomás de Vila Nova e Sequeira: A posição que tem na linha da Fronteira a faz importante para a sua defesa, porque de Valência de Alcântara ou de Albuquerque para Portalegre, para o Crato, para Castelo de Vide e também para Ribatejo, não há outra estrada por onde se possa conduzir artilharia que a do Porto da Espada, que passa à vista da Praça no sítio a que chamam o Prado, e por ela também é que se pode levar artilharia contra a mesma Praça.

Guerra das Laranjas, 1801
A Praça de Marvão sofre vários ataques, resistindo sempre.

Guerras Peninsulares, 1807-1811
No dia 25 de Junho de 1808, a Praça, governada pelos franceses, sofre um assalto vitorioso por parte de um corpo de voluntários valencianos (Valência de Alcântara) chefiados por D. Mateus Monge. Os espanhóis foram instigados pelo destemido escrivão do geral da vila (ou Juís de Fora?) de Marvão, Joaquim António da Cruz, que se havia refugado em Espanha após uma sua tentativa, malograda, de sublevação da população. O assalto foi comandado pelo Tenente-Coronel espanhol D. Vicente Perez e pelo Tenente-Coronel graduado de milícias, D. Pedro de Magalhães, filho do arquitecto português Teodoro Magalhães.

Guerras Liberais, 1832-1834
Em Junho/Julho de 1833, a Praça de Marvão, comandada pelo miguelista Coronel Francisco da Silva Lobo, resiste às intimações de rendição feitas pela guerrilha constitucional, por sua vez comandada pelo antigo coronel do exército espanhol, D. Manuel Martini. Neste período, servia de refúgio, base de apoio logístico e ponto de partida para incursões em Espanha, aos carlistas que acompanhavam o infante espanhol, D. Carlos Maria Isidro (1788-1855). Decorria em Espanha a Primeira Guerra Carlista ou Guerra dos Sete Anos (1833-1839), sendo os carlistas comandados pelo brigadeiro D. Fernando Peñarola. Em 12 de Dezembro de 1833, é conquistada a Praça de Marvão pelas tropas liberais, reunidas sob a designação de Legião Patriótica do Alentejo, com ajuda de tropas espanholas e com a cumplicidade de elementos do interior da fortaleza. De Dezembro de 1833 a 26 de Março de 1834, Marvão é cercada pelas tropas miguelistas, sob o comando do Brigadeiro António José Doutel.
As tropas liberais, comandadas pelo General António Pinto Álvares Pereira, eram abastecidas a partir do território espanhol. Foram socorridas, a 22 de Março de 1834, por forças vindas de Espanha, comandadas pelo Tenente-General José Joaquim de Abreu. O cerco levantado a 26 de Março é referido em documento militar de 1861, de forma muito elogiosa e nos seguintes termos: A esta Praça está ligado um facto histórico que muito a honra; foi o memorável sítio que ela sustentou por uns poucos de meses em 1834, tornando-se, por este feito d’armas, o baluarte da liberdade na Província do Alentejo.

Guerra civil em consequência das rebeliões da Maria da Fonte (1846) e da Patuleia (1847)
Entre 23 e 25 de Julho de 1847, a praça foi ocupada pelo General espanhol, Concha.

MONUMENTOS

O Castelo de Marvão foi uma fortificação estratégica de detenção, orientada para a fronteira, de que dista uns escassos 13 Km. Constituiu também um eficaz lugar de refúgio e um extraordinário ponto de observação e vigilância, já que dominava claramente a segunda via mais importante de penetração dos exércitos do país vizinho, a partir de Valência de Alcântara, numa vasta zona do Alto Alentejo que vai de Badajoz ao rio Tejo. A sua inserção estratégica é clara: faz parte da primeira linha de detenção, pós Tratado de Alcanizes, que vai, no actual Distrito de Portalegre, de Montalvão a Elvas.

O mais roqueiro dos castelos nacionais, constitui-se em dois recintos contíguos que, por questões defensivas, tiveram que abarcar toda a crista rochosa mais elevada.

Sobre a inacessibilidade da fortificação, é interessante a seguinte descrição do Prior Frei Miguel Viegas Bravo, nas Memórias Paroquiais de 1758:
É esta vila praça de armas, a mais inconquistável de todo o Reino; da parte do sul é inacessível, de tal sorte que só aos pássaros permite entrada, porque em todo o comprimento é contínuo, e continuado o despenhadeiro de vivos penhos em tanta altura, que as aves de mais elevados voos, dele de deixam ver pelas costas (…) o qual muro, serve mais para não deixar cair os de dentro, do que impedir a entrada aos de fora, e por isso em muitas partes é este muro baixo (…) que esta praça ou presídio não pode ter contra si em tempo Bélico mais que a falta de água.A cerca urbana ocupa a restante crista rochosa. Toda a fortificação é, obviamente, em relevo, em parte natural, com nítida preocupação pela impermeabilidade.

Fortificação de Transição:

Junto ao Postigo do Torrejão (zona outrora conhecida por Baluarte do Torrejão e por Tenalha do Cubelo) existiu um elemento de   transição hoje desaparecido.

Fortificação Abaluartada

Como quase todas as fortificações de primeira linha de detenção, metamorfoseou-se ao longo do tempo, procurando responder às novas tecnologias de guerra. A fortificação abaluartada veio então reforçar as   entradas na cerca urbana – Portas de Ródão, Portas da Vila e Postigo do Torrejão – ao mesmo tempo que reforçou a defesa do Castelo na sua zona mais vulnerável: a continuação da crista para NO. Dadas as  características orográficas do lugar, a defesa da fortificação só necessitaria cuidados num número reduzido de pontos. Assim se pensava, ainda em 1801:

Marvão é uma Praça fortíssima por natureza: construída sobre elevado e quase inacessíveis rochedos, reduz a sua defesa a pequeno número de pontos que devem ser postos em melhoramento, e cuidadosamente guardados, e que mediante uma ordinária, mas efectiva vigilância nos precisos lugares, em torno do restante circuito da Praça se pode fazer esta impenetrável às violentas e sanguinárias tentativas dos seus inimigos.

Evolução Arquitectónica

O carácter singular que tem o património arquitectónico militar da fortaleza de Marvão, é que ele representa uma fábrica eterna, uma obra contínua, aquilo que em terminologia militar se designa por sobreposição de fortalezas. Por outro lado, estão as diversas fases bem documentadas, as suas dimensões são gigantestas, a sua localização é ímpar e a conservação é exemplar.
Valendo pelo seu conjunto, podemos todavia destacar alguns elementos da fortificação com valor individual: a cisterna grande, dos finais da Idade Média / princípios da Idade Moderna, de enormes dimensões, e a existência de um albacar que, se a topografia sempre o aconselharia, não podemos esquecer a tradição árabe de construção de alcáçovas.
No estado actual dos conhecimentos, podemos conjecturar a seguinte evolução arquitectónica:

1º Período (Reconquista) – Dos sécs. XII e XIII restam os muros da Torre de Menagem, com a porta de estilo românico e as estreitas frestas verticais (seteiras primitivas); do mesmo estilo é a porta da traição do Castelo, que dá para a liça, e a porta da traição NE do albacar, o que nos faz conjecturar que no séc. XIII já pudessem existir os dois recintos do Castelo e a cisterna pequena; ainda do mesmo período serão as outras duas torres de base rectangular e quadrada, uma de ângulo, no alcácer, e outra, altiva, sobre a entrada do Castelo.
2º Período (séc. XIV) – Após a tomada do fortificação em 1299, já nos princípios do séc. XIV, D. Dinis manda reconstruir o Castelo; desta intervenção terão resultado todas as portas de arco quebrado dos dois recintos: uma no eirado da Torre de Menagem, duas à entrada do alcácer e uma à entrada do albacar; também do séc. XIV será a cerca urbana, restando ainda três torreões de planta rectangular que poderão ser deste período: dois a guardar o Postigo do Torrejão e um terceiro no primeiro troço da cerca, a NE.

3º Período (sécs. XV e XVI) – Reforça-se a defesa das entradas nos dois recintos do Castelo, levantando–se quatro cubelos no primeiro e um no segundo; a Torre de Menagem deve ter sofrido a alteração que hoje apresenta, com uma só sala possuindo tecto de abóbada suportada por duas nervuras diagonais chanfradas, de granito, em arco redondo, com um brasão real, posterior a 1485, na chave; deste período serão também as barbacãs ou barreiras – embora pudessem ter surgido no final do séc. XIV, apresentando cubelos incorporados: uma a NE do Castelo, em ruína, e outras duas a NE e a E da cerca urbana, ligando as três entradas; a barbacã do Castelo vem designada, em planta de 1812, por restos de muralha antiga; será deste período, também, a cisterna grande: pela profusão de siglas de canteiro, que lhe dão ainda o timbre medieval; pelas dimensões, que só se justificam no período de apogeu demográfico da vila; e finalmente porque, a construir-se, por hipótese, durante a Guerra da Restauração ou em período posterior, nunca levaria o avisado prior das Memórias Paroquiais setecentistas, a supô-la construção dos Godos.

4º Período (1641-1755) – Uma Planta da Praça de Marvão de 1755 mostra-nos a fortificação abaluartada construída em consequência da Guerra da Restauração (1641-1668) e da Guerra da Sucessão de Espanha (1704-1712): Baluarte da Porta de Ródão, Baluarte da Porta da Vila, Fortim junto ao Torrejão e Baluartes da rua nova (zona abaluartada do Castelo).

5º Período (1756-1812/14) – Plantas da Praça de Marvão de 1812 e de 1814 apresentam algumas alterações relativamente à planta de 1755: os Baluartes da rua nova sofrem grande alteração – a estarem correctas as plantas militares -, quer na forma (um deles passa a pentagonal), quer no tamanho (as novas fortificações são muito maiores), quer na orientação (de NO/SE passam para N/S e para O/E), passando a designar-se por Tenalha do Castelo; a entrada para o segundo recinto parece ter sido alterada, tendo-se construído um pequeno recinto fortificado a SO, para artilharia; o mesmo aconteceu, claramente, na entrada para o primeiro recinto, com a construção de dois redutos fortificados para artilharia e espingardas a SO; no topo SE do primeiro recinto foram construídas as seguintes estruturas: o Forno do Assento, que ainda existe, e dois Telheiros para Oficinas, que já não existem; o Baluarte da Porta de Ródão sofre alterações no seu interior, ficando com a estrutura que hoje apresenta; o Baluarte da Porta da vila também sofre alterações, embora mais ligeiras, na organização interna; o Fortim do Torrejão sofre alterações semelhantes às fortificações abaluartadas do Castelo, transformando-se em dois baluartes, passando a designar-se por Tenalha do Cubelo; junto a esta fortificação, no espaço onde posteriormente foi construída a antiga Escola Primária, situava-se a caserna da guarnição da Praça; as alterações deste período serão a concretização de parte dos projectos traçados em 1765, existentes no Museu Municipal de Marvão.

6º Período (a partir de 1815) – Em 1828 projectava-se um conjunto de obras, entre as quais as (…) que se precisam fazer em uma Casa da Torre no Castelo da Praça de Marvão a fim de poder servir de Paiol permanente, a saber:

(…) a escada que nesta há e dá acesso ao terraço deve tapar-se com parede a fim de ficar independente esta serventia para o terraço da Casa de entrada, e deve então demolir-lhe parte da muralha, construir-se a escada; devem também, na Casa, reduzir-se a ventiladores as frestas; finalmente devem construir-se três portas novas (…).

Esta intervenção foi realizada, tendo sido reposta a arquitectura anterior através das intervenções da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais no presente século.

Cidade Romana de Ammaia

É de todos conhecido que na área da freguesia de São Salvador da Aramenha, concelho de Marvão, se localizam as ruínas duma cidade romana. Se durante muitos séculos o nome da cidade foi confundido, em 1935 José Leite de Vasconcelos a partir da descoberta de uma nova inscrição, confirma que a velha urbe que se localizava nos férteis campos das margens do Rio Sever, se chamava Ammaia.

Julgou-se até 1935 que essa cidade teria existido no local onde se viria a desenvolver Portalegre. Essa confusão ficou a dever-se a uma inscrição romana identificada numa parede da ermida do Espírito Santo daquela cidade na qual se referia o município de Ammaia. Contudo, sabe-se hoje que muita pedra aparelhada com que foram construídos alguns dos principais edifícios de Portalegre foi trazida das ruínas da Aramenha. Entre essas pedras encontrava-se a ara que agora se guarda no Museu de Portalegre e que motivou tanta confusão.

Até que Leite de Vasconcelos identificou a nova inscrição entre as ruínas da Aramenha, estas eram consideradas como os restos de uma cidade denominada Medóbriga. A atribuição do nome Medóbriga ficou a dever-se sobretudo a André de Resende e à inscrição desse topónimo numa lápide que se encontra na Ponte Romana de Alcântara. Nessa lápide enumeram-se todos os povos e cidades que contribuíram para a construção da grande ponte que cruza o Rio Tejo. Pensa-se hoje que a Medóbriga, a que se refere a lápide de Alcântara, se situe nas imediações da vila de Meda, provavelmente, num local denominado Ranhados.

e da velha cidade de Ammaia, sobretudo a partir do século XVI, sairam muitas pedras com que se construiram palácios e igrejas em Portalegre, muitas também foram utilizadas na construção das muralhas de Marvão e de Castelo de Vide e em várias edificações particulares da Escusa, Porto da Espada, Portagem e S. Salvador. A pouco e pouco na velha e abandonada cidade de Ammaia apenas foram ficando, acima do solo, alguns muros construídos com pedra miúda e fragmentos de tijolos e telhas que não tinham interesse para as novas construções.

Da grande cidade, nos princípios deste século, apenas restavam à superfície alguns muros que a memória popular diz serem os que a terra não conseguiu engolir. As ruas e casas da velha urbe lentamente deram lugar a terrenos de lavoura. De quando em quando um arado vai mais fundo e levanta alguma cantaria ou canalização trazendo até à superfície alguns restos da desaparecida Ammaia. E, gradualmente, na tradição popular começou a construir-se uma lenda. A velha cidade da Aramenha tinha sido engolida pela terra durante um grande terramoto. A cidade está intacta, mas muito funda, dizem alguns. As telhas que o arado ainda arranca fazem parte dos telhados dos palácios soterrados, afirmam outros. À lenda da cidade soterrada associa-se a dos tesouros que ainda aí se guardariam. A procura destes lendários tesouros tem contribuído, ainda mais, para que os poucos muros e alicerces ainda sobreviventes sejam esventrados, acabando por ruir.

Da velha Ammaia já hoje pouco resta acima do solo. Uma das portas da sua velha muralha foi transportada para Castelo de Vide em 1710 e posteriormente destruída. Dela ficaram apenas algumas cantarias almofadadas utilizadas actualmente como cais de descarga de viaturas nas imediações de Castelo de Vide.

Das muitas estátuas que nesta cidade existiam, em Portugal apenas ficou uma. Guarda-se no quintal da Casa Museu José Régio em Portalegre. Num trabalho datado de 1852 o investigador espanhol D. José de Viu refere, que no seu tempo, mais de vinte belas estátuas de mármore recolhidas na Aramenha foram vendidas para Inglaterra.

Nas últimas décadas foi possível começar a recolher algumas inscrições que se mostram hoje no Museu Municipal de Marvão. Sobretudo pelas mãos de António Maçãs e Leite de Vasconcelos foram carreados para o Actual Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa inúmeras peças recolhidas em Ammaia.

Com o início dos trabalhos arqueológicos em Ammaia, ( Outubro de 1994 ), começou a constatar-se que, sobretudo a zona baixa da cidade, se encontrava bem preservada sob uma uniforme camada de terras e calhaus rolados, transportados a grande velocidade provenientes das cotas mais elevadas. Começava-se, assim, a confirmar o que a memória popular tinha guardado – “a cidade foi engolida pela terra”. Por causas ainda não determinadas verifica-se que entre os séculos V e o IX, da nossa era, a cidade de Ammaia, já em decadência, sofreu os efeitos de um qualquer cataclismo que ao soterrá-la a conservou, proporcionando que a uma profundidade média de 80 cm se possam identificar importantes estruturas arquitectónicas, como a grande praça pública lajeada que ladeia uma das portas da cidade. Na área do forum levanta-se o podium de um templo e por uma área superior a 17 hectares são visíveis testemunhos da cidade de Ammaia. Numa das encostas sobranceiras ao Rio Sever rasga-se o assento das bancadas de um recinto para espectáculos públicos.
Os mosaicos, aquedutos e calçadas que os autores dos séculos XVI, XVII e XVIII referem, ainda não foram identificados. Neste momento apenas uma ínfima parte da zona baixa da Cidade de Ammaia foi objecto de escavação e estudo, possibilitando, mesmo assim, recuperar um conjunto muito significativo de materiais arqueológicos e evidenciar estruturas habitacionais e públicas de grande importância.
Descrita por autores clássicos como Plínio, pelos autores árabes, como Isa Ibn Áhmad ar-Rázi, e pelos mais conhecidos escritores e historiadores desde o século XVI, de entre os quais se destacam André de Resende, Fr. Amador Arrais, Diogo Pereira de Sotto Mayor, Duarte Nunes de Leão e tantos outros, a cidade de Ammaia

passa, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, concomitantemente com a emergência da Arqueologia científica, a ser tema de referência obrigatória em todos os estudos sobre a presença romana e árabe na Península Ibérica. Uma vasta bibliografia, confundindo, ou não, Ammaia com Medóbriga encontra-se hoje já disponível, testemunhando e justificando a importância do estudo das ruínas da velha cidade de Ammaia, fundada pelos romanos e posteriormente alvo das atenções, no século IX, do muladi Ibn Maruán.
A par do interesse pela investigação de uma das poucas cidades romanas que não se esconde sob construções de épocas posteriores, que por norma inviabilizam estudos alargados e sistemáticos, a maior parte da área ocupada pelas ruínas foi adquirida tendo em vista a sua escavação e recuperação.
A Cidade Romana de Ammaia situada no coração do Parque Natural da Serra de S.Mamede, num dos recantos mais bucólicos e arborizados, a curta distância da Barragem da Apertadura e a meio caminho de Marvão e Castelo de Vide onde o património construído e natural é motivo privilegiado de visita, começa já hoje a ser constantemente procurada por especialistas e amantes da cultura.

Nas últimas décadas foi possível começar a recolher algumas inscrições que se mostram hoje no Museu Municipal de Marvão. Sobretudo pelas mãos de António Maçãs e Leite de Vasconcelos foram carreados para o Actual Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa inúmeras peças recolhidas em Ammaia.

A par do interesse pela investigação de uma das poucas cidades romanas que não se esconde sob construções de épocas posteriores, que por norma inviabilizam estudos alargados e sistemáticos, a maior parte da área ocupada pelas ruínas foi adquirida tendo em vista a sua escavação e recuperação.

A Cidade Romana de Ammaia situada no coração do Parque Natural da Serra de S.Mamede, num dos recantos mais bucólicos e arborizados, a curta distância da Barragem da Apertadura e a meio caminho de Marvão e Castelo de Vide onde o património construído e natural é motivo privilegiado de visita, começa já hoje a ser constantemente procurada por especialistas e amantes da cultura.

Cruzeiro Manuelino da Estrela 

Monumento religioso de finais do século XV, localizado no adro da Igreja de Nossa Senhora da Estrela, recebeu em 1922 a classificado de Monumento Nacional.

Apresenta soco de 3 degraus de granito, os inferiores de planta quadrangular e o superior circular. Coluna de mármore com base formada por plinto espiralado, pequena escócia, bocelão decorado de ornato em corda, escócia facetada e bocel; fusto curto, torso, de 3 feixes que terminam em cordas formando nós e laçaria; sobre eles anel decorado de ornato em corda igual ao bocelão da base da coluna.
Remata-a uma grande cruz terminando em pinhas em forma de flor-de-lis e tendo duas faces historiadas com a figura de Cristo esculpida e na outra a de Nossa Senhora da Piedade.

 

 

 

Chafurdões

O chafurdão ou furdão, é um tipo de construção, cuja silhueta em muito se aproxima à da choça, mas cuja estrutura é totalmente  divergente.
Não tão abundantes como as choças mas muito mais resistentes, estas enigmáticas edificações marcam indelevelmente a paisagem do concelho de Marvão. Não sendo exclusivas deste concelho, estas construções ocorrem nesta região ao longo de toda a raia.
As mais comuns, de planta circular, apresentam diâmetros que variam entre os 3,50m e os 10m. Uma estrutura exterior cilíndrica, que pode ultrapassar os 3m de altura é sobrepujada por uma cobertura em forma de calote de esfera. Os volumes isoláveis no exterior não se reflectem no interior, onde uma forma mais ou menos cónica é constatável. Esta forma interior resulta duma técnica de construção que recorre a lajes de granito ou xisto que dispostas horizontalmente e arrancando directamente da base vão-se fechando, gradualmente, à medida que se aproxima do topo. À altura máxima, esta estrutura é completada com uma laje móvel que poderá facilitar uma maior renovação do ar. Uma porta, e por vezes uma pequena fresta que sobre ela se abre, são as únicas comunicações com o exterior.
Os vãos que possam existir entre as lajes fundamentais que formam estas espantosas construções são preenchidos por pedras de menor calibre, não havendo vestígios de qualquer tipo de argamassa na sua estrutura.
No exterior, a cobertura é completada por terra batida, desempenhando multiplas funções. Para além de conferir a toda a construção uma maior estabilidade ao preencher pequenos vãos ainda existentes, isola em termos de humidade e temperatura o seu interior.
Nalguns chafurdões podem encontrar-se, no interior, pequenos nichos, abertos na parede.

Raras são as construções deste tipo que não apresentam a porta virada a nascente.

Construídas invariavelmente sobre a rocha, estas edificações não apresentam, portanto, qualquer potência de solo arqueológico. È nesta ausência de solo que reside a indefinição cronológico-cultural que as envolve.

Na verdade, já alguns estudos sobre os chafurdões foram ensaiados, contudo, nenhuma certeza ainda existe, quer quanto à sua função, quer quanto à data da sua construção. Desde sepulturas a casas de habitação, passando por abrigos de animais várias têm sido as opiniões dos investigadores sobre a razão de ser destas edificações.
Se os arqueólogos e demais investigadores não são concordantes quanto à sua função, maiores divergências existem quanto à sua origem. Durante várias décadas foram atribuídas aos Celtas. Mais tarde, com o desenvolvimento das investigações em Micenas, foram conotados com as construções de falsa cúpula do Mediterrâneo e atribuíveis à Pré-História Recente. Outros autores preferem associá-las aos povos invasores provenientes do Norte de África.
Pelo que acima fica dito, não existem, por agora, certezas quanto à data e função dos chafurdões. A sua semelhança em termos arquitectónicos com algumas pocilgas poderá estar na origem do nome com que são conhecidas. Contudo, se se destinavam ao abrigo de animais, como explicar a existência, de cercas, estas seguramente para gado, que se anexam quase invariavelmente a estas construções, bem como compreender os já referidos nichos?
Por outro lado, várias construções destas estão associadas a sepulturas escavadas na rocha, podendo ser contemporâneas. Embora também para estas sepulturas não existam datações seguras, vários autores parecem concordar que remontarão aos inícios da Idade Média, podendo prolongar-se até ao século XI.

Se os chafurdões fossem contemporâneos das sepulturas qual seria a sua função? Para espaço de habitação característico da época, eles são em reduzido número e bastante distintos doutras construções, geralmente muito menos robustas e com uma arquitectura menos cuidada, também contemporâneas das sepulturas escavadas na rocha. Tratar-se- iam de espaços de habitação de alguma elite ou de local destinado a acolher manifestações de caracter religioso? Recordemos que, na sua maioria a porta se encontra virada a nascente e que a fresta que sobre ela geralmente se abre deixa projectar um raio de Sol bastante forte que rasgando a penumbra interna poderia incidir sobre qualquer objecto de culto, realçando os seus efeitos mágicos.

No concelho de Marvão, são conhecidos cerca de dezena e meia destas construções, algumas profundamente transformadas como é a que se localiza nas imediações do Lagar de frades. Este chafurdão, associado a vestígios de um habitat datável da Alta Idade Média, foi, recentemente, revestido de argamassa, servindo actualmente para o resguardo de animais.
Tratando-se de construções bastante robustas elas começam já a mostrar vestígios de degradação. Esta situação acelerou-se, principalmente, com o gradual abandono dos campos a que temos assistido nos últimos anos. O agricultor e o pastor ao servirem-se dos chafurdões para os mais diversos fins contribuíram para a sua manutenção. Recolocando alguma pedra que caía, repondo terra na cobertura, cortando alguns arbustos que por entre a estrutura teimavam em crescer, os chafurdões conseguiram, assim chegar aos nossos dias.

AS CHOÇAS

Quem percorrer a Serra de S. Mamede encontra em vários locais, mas sobretudo junto à fronteira com Espanha testemunhos das tradicionais construções, popularmente conhecidas por choças. Nas zonas mais raianas, certamente por influência da língua castelhana, são também conhecidas por sochas.
Se da maior parte delas só hoje resta a estrutura pétrea, mais ou menos intacta, há algumas, especialmente no concelho de Marvão e Castelo de Vide que continuam perfeitamente funcionais. Dispersas pelos campos, ou em aglomerados, estas interessantes construções destinavam-se a diversos fins. Desde a pequena estrutura junto às terras de cultivo que serve de guarda às poucas alfaias necessárias ao amanho das terras e a dar protecção a algum gado ou a colheitas, até às choças de habitação continuada, encontramos na Serra de S.Mamede diversas edificações que poderemos incluir no grande grupo das habitações com cobertura vegetal.

Das mais comuns, de planta circular, passando pelas quadrangulares até às raras de planta rectangular, registam-se com várias dimensões, quer em planta, quer em alçado. Esta variabilidade resulta, naturalmente, dos diferentes fins a que se destinavam, independentemente da época de construção. Nas imediações de Santo António das Areias, Porto da Espada e S.Julião é ainda possível observar algumas choças incluídas em pocilgas, destinadas a dar guarida a porcos. Estas, apresentam, na sua maioria, portas cuja altura raramente ultrapassa os cem centímetros, sendo, naturalmente a sua cobertura de dimensões reduzidas. Na encosta norte de Marvão, por entre os grandes afloramentos graníticos e especialmente nas imediações dos Cabeçudos e Barretos podem encontrar-se as de maiores dimensões. Utilizadas até há pouco tempo como casas de habitação estas choças, cujo diâmetro interno por vezes ultrapassa os cinco metros e da base ao topo do cone de cobertura chegam a atingir os oito metros, podiam encontrar-se aglomeradas formando pequenos aldeamentos.

Com uma técnica de construção rudimentar mas muito eficiente, estas choças utilizam no seu fabrico unicamente matéria-prima obtida localmente. A estrutura lítica é composta, invariavelmente, por blocos de pedra justapostos sem auxílio de qualquer tipo de argamassa. Sobre esta estrutura de pedra assentam vários barrotes, geralmente de madeira de castanho que inflectindo para o interior dão forma ao esqueleto da cobertura cónica que os irão cobrir. Pelo Outono cortam-se as giestas que entrelaçadas e por vezes atadas cobrem completamente a estrutura de madeira previamente montada. Uma porta, por norma de castanho, possibilita o acesso ao interior formado por um só espaço. Na parte superior da porta abre-se geralmente um pequeno postigo ferrado.

Com esta técnica, obtém-se assim, uma construção impermeável, resistente aos ventos e propiciadora de um espantoso isolamento térmico. Com grande facilidade podem ser substituídas partes da cobertura, que por se encontrarem mais expostas aos elementos mais rapidamente se deteriorem.

Consideradas nas últimas décadas como sinónimo de pobreza, muitas foram abandonadas ou transformadas. As transformações mais comuns consistem na substituição da cobertura cónica por um telhado de uma ou duas águas revestido por placas de zinco ondulado, ou mesmo telha, alterando completamente o isolamento térmico que a cobertura vegetal facultava e inviabilizando a utilização da lareira no interior da construção, proporcionada anteriormente pela grande altura da estrutura cónica.

Na zona sul do Parque Natural da Serra de S.Mamede, onde a giesta não é tão abundante outras soluções foram adoptadas no revestimento destas construções. Fiadas de palha sobrepostas e entrelaçadas entre si substituem com algum êxito as vulgares coberturas de giesta. As maiores dimensões, sobretudo em altura, alcançadas pelas choças da zona norte contrastam com a menor volumetria patente nas construções ainda bem vivas no concelho de Arronches. Destaque merece ainda a significativa presença de choças quadrangulares, ou rectangulares quando revestidas a palha, divergindo das de planta circular, revestidas maioritariamente por giesta e que marcam a paisagem da zona dos granitos.

As choças, construções intemporais desde sempre presentes na paisagem humanizada da Serra de S.Mamede, parecem ser testemunhos vivos das habitações pré-romanas.

Ponte Quinhentista

 

A Ponte em Granito da Portagem, que transpõe o Rio Sever, é um dos muitos “ex-libris” do concelho de Marvão e pode ser considerada como uma das mais perfeitas obras de engenharia viária conhecidas no Alentejo.

 

A sua localização nas proximidades da Cidade Romana de Ammaia (freguesia de S. Salvador de Aramenha), juntamente com a presença de materiais romanos nas suas imediações, têm contribuído para que praticamente todos os autores a considerem como obra dos romanos ou do seu tempo.
Segundo Diogo Pereira de Sotto Maior refere no tratado da Cidade de Portalegre, concluído 1619, existiria ainda no tempo dele ( possivelmente nos finais do séc. XVI), uma ponte defronte da qual estava uma porta inteira. Tratar-se-ia do célebro Arco da Aramenha que Manuel de Azevedo Fortes, Governador da Praça de Castelo de Vide, mandaria transportar para aquela Vila no ano de 1710. Esta porta situava-se na área da quinta da Azenha Branca, local de maior concentração de vestígios Romanos da cidade de Ammaia. A ponte que lhe ficaria defronte seria obra do tempo dos Romanos, se atendermos aos vestígios que ainda hoje se encontram no local.

Informa-nos ainda o autor do século XVII que a ponte foi derrubada para evitar que por ela passasse mercadorias para Castela sem pagarem direitos. Esta ponte foi substituída por outra que na sua altura se construiu mais abaixo, junto de uma Torre que se chamava Portagem. Nesta Torre de características medievais, funcionaria a aduana de Marvão e nela se cobrariam os direitos de portagem, funcionando desde, pelo menos, o dia 1 de setembro de 1416 (Laranjo Coelho, 1988).

Conclui-se, portanto, que a vulgarmente chamada Ponte Romana da Portagem, remontará, quanto muito, aos finais do século XVI. É de crer, que a maior parte das cantarias utilizadas na construção da ponte sejam de facto Romanas, certamente reutilizações das da  anterior ponte ou de outros edifícios Romanos que abundavam em ruínas na região.

As Igrejas de Marvão

A arquitectura religiosa constitui um conjunto significativo, na multiplicidade das suas formas, góticas, renascentistas e barrocas.
As diferentes construções religiosas e invocações vão desde as igrejas paroquiais de serviço pastoral e devoção nacional, Santa Maria e São Tiago, à expressão social-religiosa da antiga Misericórdia, igreja do Espírito Santo, devoção ao Sofrimento de Cristo, no sentir alentejano, na igreja do Calvário, à invocação de Nossa Senhora da Estrela, devoção ancestral, veículo de piedade e romaria, integrada no Convento Franciscano de Nossa Senhora da Estrela.




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